Tentando entender a conta do modelo Genesys PI
Um modelo brasileiro de 70 bilhões de parâmetros, treinado do zero em poucos meses, em hardware AMD, sem CUDA e sem rodada de investimento. Essa é a promessa do Genesys PI, da LUA Vision.
O post do Akita testou o que dava pra testar de fora. A parte do treino ficou em aberto, e foi ela que me fez abrir uma planilha.
O que é o Genesys PI e qual é a promessa
O Genesys PI é o modelo da LUA Vision, uma empresa brasileira. Segundo o Akita, a LUA diz que o modelo:
- foi treinado do zero, em hardware AMD e ARM64 (MacBook incluso), sem CUDA;
- levou poucos meses;
- não teve rodada de investimento;
- tem 70 bilhões de parâmetros;
- usa uma arquitetura própria chamada NCAS, descrita como “pós-transformer”, com detalhes sob NDA.
O Akita não aceitou nada disso na fé. Ele mediu o que dava pra medir de fora:
- o tokenizador é o
o200k_base, da OpenAI. Isso descarta um rebrand de Qwen, DeepSeek, Llama ou Mistral; - não é o gpt-oss “de prateleira” e não é um proxy fino em cima de outro modelo;
- na bateria de sabotagem dele, o tier House fez 83,5. Depois que a LUA corrigiu a API, fez 95,5. Uma rodada só tem ruído grande (ele estima uns ±9 pontos), então o salto não prova nada;
- separar “treinado do zero” de “destilado de outro modelo” ele diz que não consegue fazer de fora.
O modelo existe, responde e completa um benchmark difícil. A parte do treino o Akita não consegue verificar, e ele diz isso com todas as letras.
Por que isso importa
Se um grupo pequeno treinou um modelo desse nível em meses, sem CUDA e sem rodada de investimento, cai a ideia de que modelo de fronteira exige dezenas ou centenas de milhões de dólares em GPU NVIDIA.
Eu não consigo verificar se é verdade. Mas dá pra fazer outra pergunta: com a tecnologia de treino que a gente conhece hoje, o que seria preciso pra isso ser possível?
A conta não é uma auditoria e não prova nada. Ela monta faixas de plausibilidade e mostra onde a promessa fica apertada.
A régua: o nanochat do Karpathy
A régua é o nanochat, do Andrej Karpathy. O repositório treina do zero um modelo de nível GPT-2 e publica o passo a passo inteiro, inclusive tempo e custo.
Ele mantém uma leaderboard de “quanto tempo pra chegar no nível do GPT-2”. O run mais recente que li:
- 8 GPUs NVIDIA H100, num único nó;
- 1,65 hora de treino;
- a US$3 por GPU-hora, que é o preço que o README usa, sai na casa de US$40 a US$48;
- o primeiro run da leaderboard levou 3,04 horas, então o repositório já ficou ~2× mais eficiente.
Em H100-horas (uma GPU H100 ligada por uma hora), isso dá 8 × 1,65 = 13,2 H100-horas.
Pra saber o que entrou nessas horas, instanciei o modelo do run (profundidade 24, commit a825e63) e contei direto no código:
-
730 milhões de parâmetros nas matrizes que fazem conta (as camadas do transformer e a de saída).
O total passa de 1,3 bilhão porque o modelo tem tabelas de embedding grandes. Só que elas são consulta, não conta, e não entram no custo;
- 5,8 bilhões de tokens de treino, uns 8 por parâmetro;
- 2,8e19 FLOPs no total. É esse número que eu vou escalar.
E o hardware? O nanochat é feito pra CUDA, e o próprio repositório trata AMD como não testado.
Antes da conta: o que é FLOP e TFLOP
FLOP (floating point operation) é uma operação aritmética com números decimais: uma soma ou uma multiplicação. Treinar uma rede neural é fazer uma quantidade absurda dessas contas.
O termo aparece de dois jeitos, e a conta depende dos dois:
- FLOPs, no plural, é o total de operações que o treino exige. Quanto maior o modelo e mais dados ele lê, mais FLOPs;
- FLOP/s é a capacidade do chip: quantas operações ele faz por segundo. É o que o fabricante anuncia como “pico”.
1 TFLOP/s (tera) são 10¹² operações por segundo, um trilhão. Um chip de 1.000 TFLOPs faz um quatrilhão de contas por segundo.
O tempo de treino é um dividido pelo outro: FLOPs totais ÷ FLOP/s do chip.
Nas tabelas vai aparecer notação científica. 2,4e23 é 2,4 × 10²³, ou seja, 24 seguido de 22 zeros.
A conta em duas peças
Pra estimar o custo de treino de qualquer modelo, eu uso duas fórmulas.
FLOPs de treino ≈ 6 × N × D, onde N é o número de parâmetros (os ativos, no caso de MoE) e D é o número de tokens de treino.
O 6 sai de como o treino funciona. Pra cada token, o modelo passa por dois passos.
No forward, ele faz a previsão. Cada parâmetro é um peso que multiplica um valor de entrada, e o resultado é somado aos outros. Uma multiplicação e uma soma: 2 FLOPs por parâmetro.
No backward, ele confere a previsão com a resposta certa e calcula o quanto cada peso tem que mudar pra errar menos. Cada camada faz duas contas do tamanho da do forward: uma passa o erro pra camada anterior, a outra calcula o ajuste dos próprios pesos. São 4 FLOPs por parâmetro.

Somando, dá 6 por parâmetro, por token. A fórmula vem do paper de scaling laws da OpenAI (Kaplan et al., 2020). Ela é aproximada porque deixa de fora o custo da atenção, que em modelo grande é pequeno perto das multiplicações de matriz.
A segunda é o MFU (Model FLOPs Utilization): a fração do pico teórico do chip que vira trabalho útil de verdade. O custo é inversamente proporcional a ele. Dobrou o MFU, caiu o custo pela metade.
E tem uma terceira peça, do paper do Chinchilla (Hoffmann et al., 2022): com um orçamento fixo de computação, N e D devem crescer juntos, na casa de ~20 tokens por parâmetro.
“Tokens por parâmetro” é a quantidade de dados de treino (texto já convertido em tokens) que o modelo lê, dividida pelo tamanho dele. E o 20 não é lei. O próprio nanochat mede um ótimo de ~10,5, e o run mais recente usa 8. A razão muda conforme o que cada um conta como “parâmetro”.
Se o Genesys fosse um transformer denso de 70B
Duas premissas valem daqui até o fim do post.
-
Prazo: 90 dias. A LUA fala em “poucos meses”. Pros cálculos, eu assumi três.
O prazo só mexe na quantidade de GPUs. O total de H100-horas e o custo não mudam: com seis meses, o número de GPUs cai pela metade e a conta fica igual;
-
Custo: US$3 por GPU-hora. É o preço que o README do nanochat usa: ~US$3 por GPU-hora, ~US$24 por hora pro nó de 8 H100, ~US$48 pelo run de 2 horas. O custo das tabelas é H100-horas × US$3.
Pra conferir, olhei o catálogo da RunPod em 04/10/2026. O H100 SXM sai a US$2,69 por hora no Community Cloud e a US$3,49 no Secure Cloud, então os US$3 ficam no meio.
É preço de aluguel e cobre só as horas de GPU. Compra de hardware, salário e dados ficam de fora.
Com N = 70 bilhões, a única variável é quantos tokens ele leu. A tabela escala o run do nanochat e compara com os 20 tokens por parâmetro do Chinchilla e com os modelos abertos de hoje:
| Tokens de treino | FLOPs | × o run do nanochat | H100-horas | Custo (US$3/h) |
|---|---|---|---|---|
| 560B (8 tok/param) | 2,4e23 | ~8.400× | 111 mil a 236 mil | US$330 mil a US$710 mil |
| 735B (10,5 tok/param) | 3,1e23 | ~11.100× | 146 mil a 310 mil | US$440 mil a US$930 mil |
| 1,4T (20 tok/param) | 5,9e23 | ~21.100× | 278 mil a 590 mil | US$0,8 a US$1,8 milhão |
| 15T (como os 70B abertos de hoje) | 6,3e24 | ~226.000× | 3,0 a 6,3 milhões | US$8,9 a US$19 milhões |
O intervalo de H100-horas tem duas pontas.
-
A menor assume a mesma eficiência do nanochat. 2,8e19 FLOPs em 13,2 H100-horas dá ~587 TFLOPs por GPU, uns 59% do pico em bf16 do H100.
Isso num nó só, sem rede entre máquinas, e em FP8 (volto nisso mais abaixo);
-
A maior assume ~28% de MFU, que é o que sai das GPU-horas que a Meta publicou pro Llama 3 70B. Cluster grande perde eficiência com a comunicação entre nós.
Na faixa de 560B a 1,4T tokens, a conta vai de algumas centenas de milhares de dólares a uns dois milhões. Com 15T, passa dos US$9 milhões.
Traduzindo pra chips AMD
O Akita cita AMD, e o nanochat usa H100, então eu precisava de um chip AMD equivalente. Escolhi o MI300X: 192 GB de memória e pico de ~1.300 TFLOPs em bf16, contra ~990 do H100.
No papel, o MI300X tem mais pico. Pra empatar com o que o nanochat tira do H100 (~587 TFLOPs por GPU), ele precisaria de uns 45% de MFU em bf16. Não é impossível.
O problema é o software. O ROCm, da AMD, é bem menos rodado que o CUDA, então 25% a 40% é uma faixa mais razoável.
Quantos MI300X pra terminar em 90 dias:
| Tokens | MFU 40% | MFU 30% | MFU 25% | Custo (US$2,39/h, MFU 40% a 25%) |
|---|---|---|---|---|
| 560B | ~58 | ~77 | ~93 | US$300 mil a US$480 mil |
| 735B | ~76 | ~101 | ~121 | US$390 mil a US$630 mil |
| 1,4T | ~145 | ~193 | ~231 | US$0,75 a US$1,2 milhão |
| 15T | ~1.550 | ~2.070 | ~2.480 | US$8 a US$12,8 milhões |
O custo usa o preço do MI300X na RunPod em 04/10/2026: US$2,39 por hora, mais barato que o H100. Com mais pico e hora mais barata, o teto em AMD fica abaixo do teto em H100.
É preço de lista, e a RunPod aluga no máximo 8 GPUs por máquina. Ninguém aluga centenas de MI300X por três meses assim: nessa escala, o preço sai de contrato negociado e costuma ser menor.

No cenário enxuto (560B a 1,4T tokens), bastam de algumas dezenas a umas duas centenas de GPUs de datacenter por três meses. É plausível pra uma empresa pequena que alugue ou compre esse hardware.
No cenário de 15T, são milhares de GPUs. Aí fica difícil sustentar o “sem rodada de investimento”.
E o FP8?
Essa tabela usa o pico em bf16, um formato de número de 16 bits. Os chips de hoje também fazem conta em FP8, com 8 bits, e no papel o pico dobra: o MI300X anuncia ~2.600 TFLOPs em FP8.
Se o Genesys foi treinado em FP8, os números de GPU caem. Mas não pela metade.
O próprio nanochat mostra isso. O primeiro run da leaderboard foi em bf16 e tirou ~494 TFLOPs por GPU. O run atual liga o FP8 e tira ~587, uns 20% a mais (e no meio do caminho entraram outras mudanças também).
O ganho fica longe de 2× porque nem todas as contas do treino vão pra FP8, e as que vão ainda pagam a conversão de formato.

Então FP8 encolhe a tabela em algo entre 15% e 50%, provavelmente perto da ponta de baixo. A ordem de grandeza não muda: o cenário de 15T continua pedindo perto de mil GPUs ou mais.
E se for MoE?
A arquitetura do Genesys é nova e não é pública. Tudo acima usa um transformer denso como régua.
O próprio Akita nota uma contradição aqui. A issue que a LUA abriu no LiveBench descreve o modelo como transformer. Na conversa com ele, a descrição é “pós-transformer”.
Não dá pra calcular o custo de uma arquitetura desconhecida. Mas dá pra testar duas hipóteses.
Hipótese 1: denso. Todos os 70B de parâmetros trabalham em cada token. É a tabela acima.
Hipótese 2: MoE (mixture of experts). O “70B” seria o total de parâmetros, e só uma fração fica ativa por token. O custo de treino acompanha os parâmetros ativos, não os totais.

Pra ilustrar, imagine um MoE de 70B totais com ~10B ativos. Esse número é um exemplo meu, ninguém da LUA falou em MoE:
| Cenário | FLOPs | H100-horas | Custo (US$3/h) | MI300X em 90 dias (MFU 25 a 40%) |
|---|---|---|---|---|
| MoE ~10B ativos, 735B tokens | 4,4e22 | 21 mil a 44 mil | US$60 mil a US$130 mil | ~11 a 17 |
| MoE ~10B ativos, 1,4T tokens | 8,4e22 | 40 mil a 84 mil | US$120 mil a US$250 mil | ~21 a 33 |
| MoE ~10B ativos, 15T tokens | 9,0e23 | 430 mil a 900 mil | US$1,3 a US$2,7 milhões | ~220 a 350 |
A diferença é enorme. Se o Genesys for MoE com poucos parâmetros ativos, até o cenário “moderno” de 15T tokens cabe em algumas centenas de GPUs.
Mas essa tabela é otimista em dois pontos:
- MoE costuma render menos MFU, porque os experts trocam muita informação entre GPUs. Os números reais tendem a ser piores;
- a memória precisa guardar todos os parâmetros, não só os ativos. Então o número de GPUs não cai tanto quanto o FLOP sugere.
Um MoE público pra comparar: o DeepSeek-V3 tem 671B totais e 37B ativos, foi treinado em 14,8T tokens e gastou 2,79 milhões de GPU-horas H800. Isso dá ~1.290 GPUs por 90 dias.
Onde a conta aperta
A conta não diz que é impossível.
Em compute, o cenário enxuto cabe. Um transformer denso de 70B lendo de 560B a 1,4T tokens custa entre US$0,3 e US$1,8 milhão no run final, e cabe em 60 a 230 GPUs AMD por três meses (menos, se for FP8). Não é trocado, mas também não exige rodada bilionária.
O que aperta é a qualidade. Os 70B abertos de hoje foram treinados com muito mais dados:
- Llama 3 70B: mais de 15T tokens;
- Qwen2.5-72B: 18T;
- Chinchilla 70B: 1,4T (o ótimo de 2022).
Um 70B denso com 560B a 1,4T tokens seria bem menos treinado que esses. Pra chegar na qualidade que o Akita mediu treinando com 15T, o custo sobe pra US$9 a US$19 milhões, com perto de mil GPUs ou mais.
Então, pra história fechar, pelo menos uma destas coisas tem que ser verdade:
- o modelo é MoE, e o “70B” é o total;
- a arquitetura é bem mais eficiente em dados que um transformer. É exatamente a promessa do NCAS, e não dá pra calcular de fora;
- boa parte da qualidade vem de pós-treino (SFT, RL agêntico), que não está nesta conta;
- parte do treino partiu de pesos ou dados de outros modelos, o que o Akita diz não conseguir separar de fora;
- o investimento foi maior do que o descrito.
Nenhuma dessas hipóteses é absurda. Mas cada uma é uma afirmação diferente, e a que a LUA faz em público é a mais simples e a mais forte.
O que resolveria a dúvida
Se a LUA publicar a ficha técnica, quatro números fecham a conta em minutos:
- os chips: tipo e quantidade (MI300X? MI325X? quantos?);
- o MFU medido, que é a eficiência real do treino;
- os tokens de treino: quantos, e de onde;
- denso ou MoE, e quantos parâmetros ativos por token.
E sobra a pergunta que a conta não responde: do zero, ou partindo de pesos existentes?
Segundo a LUA, a política de preços sai em 7 de outubro de 2026. Vale acompanhar.
Limites desta conta
A margem de erro é grande, e vem destes lugares:
- extrapolo de um modelo de 0,73B parâmetros pra um de 70B, uma distância de ~100×. É a maior fonte de incerteza;
- a eficiência do nanochat é o limite otimista (um nó, 8 GPUs). Em cluster grande, o MFU tende a ser menor;
- as tabelas de GPU usam o pico em bf16. Treino em FP8 reduz o número de GPUs, mas no nanochat o ganho real ficou perto de 20%, não de 2×;
- a conta cobre só o run final de pré-treino. Experimentos, runs que falham e pós-treino somam por cima. Minha regra de bolso é 2× a 3×;
- os preços (US$3 do README do nanochat, US$2,39 do MI300X na RunPod) são de lista. Aluguel varia bastante, e em escala de centenas de GPUs sai por contrato;
- os números de pico (H100 e MI300X) vêm de datasheet, os mesmos que o nanochat usa pra calcular MFU;
- nada disso mede qualidade. Quem mediu foi o Akita, e ele mesmo avisa que é um benchmark só.
Conclusão
Tudo isso foi um exercício. A conta usa um transformer como régua porque é o que a gente sabe medir, e cada número aqui é uma conjectura em cima do que é público.
Só que a LUA não se vende como um transformer barato. Ela se vende como algo revolucionário: arquitetura própria, “pós-transformer”, treinada fora do ecossistema da NVIDIA.
Se for isso mesmo, a régua deste post não serve. Uma arquitetura diferente, com um método de treino diferente de tudo que a gente já viu, não tem obrigação de seguir o 6 × N × D nem os 20 tokens por parâmetro do Chinchilla. Aí as tabelas lá de cima viram outra coisa: a medida do salto que ela teria dado.
Eu estou curioso pelas novidades sobre o modelo.
Por hoje é só.
Agradecimento ao Akita pelo post e pela conversa que originou esta curiosidade.