Você não precisa acompanhar um agente enquanto ele arruma um banner.

Em 2017, Attention Is All You Need apresentou o Transformer, a arquitetura por trás dos modelos que hoje mudaram o jeito como a gente trabalha. Vou pegar o título emprestado pra falar de outra atenção: a sua.

No trabalho com IA, vejo cada vez mais tarefas que precisam muito dela e outras que já podem receber zero atenção durante a execução. Só que a gente ainda organiza boa parte do trabalho como se precisasse acompanhar tudo.

1. Importante não é sinônimo de manual

Um banner, um erro de posicionamento, um ajuste de responsividade, uma transição que ficou estranha.

Tudo isso afeta o usuário, então importa. Quanto importa depende do contexto. Mas em boa parte dessas tarefas a decisão já foi tomada. A gente sabe como a tela deveria se comportar. Falta fazer funcionar daquele jeito.

Se alguém pudesse resolver isso por você e trazer o resultado pra validar, seria ouro. Pois bem, com os modelos e os harnesses que temos hoje, esse alguém já pode ser um agente.

Ele faz o ajuste, sobe a aplicação, abre o Chrome via MCP, testa em tamanhos de tela diferentes, tira screenshots, compara o resultado com o que foi pedido e corrige o que ainda estiver errado. Pode até gravar um vídeo como evidência. O ciclo inteiro de implementar, olhar e ajustar pode acontecer sem você no meio.

Você define o que precisa acontecer e valida a entrega. Não precisa escolher o breakpoint, sugerir cada propriedade de CSS nem ficar olhando o terminal enquanto o agente trabalha.

É que nem contratar alguém pra pintar uma parede e ficar atrás da pessoa fiscalizando cada passada do rolo. Você precisa combinar a cor e conferir o acabamento. Se ficar acompanhando cada movimento, vai passar o dia ocupado com a pintura do mesmo jeito.

NOTA: um vídeo mostra o que foi testado, não tudo que poderia dar errado. Se o ajuste mexeu numa regra de permissão ou escondeu uma ação importante, a revisão precisa olhar isso também.

A importância do resultado não exige a sua atenção em cada etapa.

2. “Isso é com o pessoal do front”

Tenho visto isso num time em que trabalho. Antes da minha entrada, o fluxo era bem demarcado: fulano faz só frontend, ciclano faz só backend. E o time ainda trava em coisa trivial por causa disso.

Pra resolver um ajuste visual, você depende de outra pessoa. Entra na fila de quem “faz front”, mesmo quando o comportamento já está decidido e um agente consegue executar e verificar a mudança.

Essa divisão já me incomodava. Hoje faz menos sentido ainda. Por que esperar o especialista escrever o CSS que o agente também escreve?

Enquanto isso, há perguntas que merecem atenção: essa regra de negócio está certa? Esse usuário pode acessar esses dados? A gente entendeu o problema que está tentando resolver?

Sempre houve tarefas que exigiam mais julgamento que outras. Agora dá pra delegar várias das menores ao agente, sem precisar ocupar outra pessoa com elas. Mas a gente continua distribuindo trabalho como antes.

3. Eu não faria os cursos que fiz

No post A profissão pra qual eu estudei não existe mais, contei um pouco do começo da minha carreira.

Durante o curso técnico, HTML e CSS foram das primeiras coisas que estudei por vontade própria. Estavam na ementa, mas o conteúdo era muito básico. Fiz HTML básico, HTML avançado e CSS nos cursos da Fundação Bradesco. Também fiz um baita curso com Jeremy Foster e Michael Palermo, na extinta Microsoft Virtual Academy.

Hoje, eu não faria. E não recomendo que você faça, a menos que seja por hobby.

Como investimento profissional, inclusive pra quem é júnior, eu usaria esse tempo de outro jeito. Trabalharia em problemas reais, com o agente, pra aprender a ler a estrutura de uma página, reconhecer problemas de acessibilidade e investigar o comportamento do navegador. Não seguiria uma sequência de cursos pra depois fazer esse trabalho na mão.

O Akita escreveu sobre isso recentemente: transformar uma decisão visual pronta em HTML e CSS é justamente o trabalho mecânico que já podemos delegar. Escolher o que a interface precisa comunicar continua sendo outra tarefa.

O Karpathy recomendou pedir explicações em HTML, com páginas interativas e animações, pra entender melhor um assunto. O agente monta uma interface que você usa pra aprender e depois pode jogar fora.

Olha a inversão: aquilo que eu passava horas estudando pra produzir virou um formato de saída que eu posso pedir pra entender outra coisa.

Eu não me arrependo dos cursos. Fizeram sentido naquele momento. Mas ter aprendido daquele jeito não me obriga a recomendar o mesmo caminho pra quem começa agora.

A minha atenção continua limitada. Se eu gasto a tarde acompanhando um ajuste de responsividade que o agente consegue resolver e demonstrar, essa tarde não volta pra entender o produto ou investigar um problema difícil.

Attention is all you need. Só vale escolher melhor onde colocar a sua.

Por hoje é só.